sexta-feira, 27 de maio de 2011

Tareco, o gato de Luanda


Esta é a história mais antiga de que me lembro, passada com um animal. Corria o ano de 1959 em Luanda.
Tínhamos um gato tigrado, o Tareco, que eu adorava.
Amava-o tanto que a toda a hora o queria pegar ao colo, enfeitava-o com laçarotes e perfumava-o. Condescendente a todas as minhas brincadeiras se submetia. Os meus pais tinham uma loja de vestuário e ele andava por ali livremente, saía e entrava quando queria.
Até que o seu comportamento começou a mudar, tornou-se esquivo, já não gostava das minhas brincadeiras, começou inclusivamente a fazer as necessidades fisiológicas nos sítios mais escondidos da loja, estragando muitas peças de roupa. A minha mãe repreendia-o, mas nada resultava... enervada com a situação deu ordem ao nosso criadito negro que o afocinhasse nos cocós e lhe desse umas palmaditas.
Ora, o criadito que não gostava de gatos, batia-lhe com força com a cabeça no chão. Ao ouvir as miadelas lamentosas a minha mãe acorria e ralhava ao mocito, dizendo que não era para lhe fazer mal, mas só para o ensinar.
É crença dos negros que os gatos dão azar,que são feiticeiros, daí que muitas maldades e até barbaridades lhes fazem. O que estava a acontecer, que nós não percebemos na altura, é que o Tareco era perseguido pelos inúmeros trabalhadores que se juntavam no enorme quintal das traseiras do prédio. Essa era a razão porque se escondia na loja e lá fazia os cocós.Só que nós não tinhamos ligado as coisas.
Um dia, quente e de sol forte como quase todos, brincava eu sozinha no terreiro do quintal. Subitamente alegrei-me! Apareceu o meu Tareco, que já pouco se dava a ver. Chamei-o, olhou-me e virou-me as costas. Insisti e fui atrás dele toda contente,chamando-o. Ele apressou o passo e eu corri para o apanhar.
Parou, virou-se e fixou-me.
Eu era tão pequenina, mas entendio olhar!
Senti o perigo e voltei-me desatando a fugir.
Ele deu um salto pelas minhas costas, tropecei, caí com ele em cima de mim. Apavorada gritei, ele mais do que arranhar mordia-me toda!
Para minha sorte, o meu pai ouviu os gritos e salvou-me, mas fiquei muito ferida. Até hoje tenho cicatrizes deixadas pelos dentes dele.
Um dia, os trabalhadores negros cortaram-lhe o rabo com uma catana, eu chorei como uma Madalena, mais tarde cegaram-no e eu fiquei destroçada.
A verdade é que eu continuava a amar o meu Tareco e entendi porque ele se tinha tornado "mau", selvagem. Tinham sido os homens os culpados, não ele.
Chorei muito pelo Tareco, tinha apenas cinco aninhos e o meu coração fez-me perceber que ele era uma vítima da maldade dos homens, nunca o culpei.
Continuei sempre a amar os gatos.

Sem comentários:

Seguidores

Os melhores amigos

Os melhores amigos
Companheira de vida

Número total de visualizações de página